sábado, 19 de fevereiro de 2011

Geração (à) Rasca

Eu pertenço ao que em tempos chamaram Geração Rasca, e que hoje é mais Parva que nunca. Sou o estereótipo, licenciada, com vínculo precário. Há quem grite por aí que afinal nós somos é perguiçosos, temos o canudo e não queremos é trabalhar.
Comecei a trabalhar com 19 anos. Não entrei na Universidade à primeira, logo, fui trabalhar. Fui para uma loja de roupa chique (sapatos a 100 contos!), a ganhar 60 contos, trabalhava 6 dias por semana e nunca tive contrato ("se aparecer a fiscalização, dizes que é o teu primeiro dia, por isso não tens contrato ainda"). Nem contrato nem descontos, claro! Fiquei 6 meses, até que entrei na Universidade.
Escolhi um curso de Agricultura, porque um país inteligente faz uma aposta inteligente numa agricultura moderna e competitiva. Depois acordei e vi que estava em Portugal. Primeira desilusão...
Durante o curso, muito graças a um pai trafulha e apesar do esforço inglório de uma mãe como há poucas, tive também de arranjar nova forma de obter rendimentos. Iniciei-me no maravilhoso mundo dos Recibos Verdes, vendendo Gás Natural! Ganhava ao contrato assinado, pelo que, passado o primeiro ano de isenção da Segurança Social, às vezes nem ganhava para a pagar. E isso viria atormentar-me muito mais tarde.
Ainda antes de acabar o curso, surgem duas oportunidades de emprego simultâneas. Fiz a minha primeira escolha. Vendedora de Pet Food, inebriada pelos 660€ prometidos (que afinal nunca passaram dos 600, primeira mentira), com o carro, telemóvel e computador à disposição. 3 contratos de 6 meses depois, e antes de ser obrigatória a efectividade, adeusinho, foi muito bom mas não pode ser.
Mas fui chamada a seguir o mesmo projecto numa empresa rival. Ganhava 750€, o trabalho era o mesmo, uma empresa sólida e quase familiar. Nunca fiz contrato, passei logo à efectividade. Passados 6 meses fui "promovida". Uso as aspas porque de facto fui promovida, passei a chefiar os colegas, a ficar no escritório e a ganhar 1000€ (metade no recibo e metade à parte, tão "à patrão"...), mas fiquei sem carro e gastava cerca de 250€/mês em gasolina, por isso... Entretanto engravidei e de promovida fui despedida aos 7 meses, num domingo, a trabalhar, de um dia para o outro. Tudo muito premeditado e legal, por incrível que pareça. Primeira viagem ao mundo dos Centros de Emprego, ao Subsídio de Desemprego. E graças à política do patrão portuga, a ganhar uma miséria.
Tive o M., esgotei o SD. Fiz algumas coisas. Comercial da Optimus (500€, Recibo Verde ilegal), vendedora de detergentes (500€, sem recibo). Este último durou um mês, após o qual o patrão teve alguma dificuldade em largar o guito... Nos entretantos, e entre a licença de maternidade e o SD, surge o litigioso da Segurança Social a exigir o pagamento das contribuições em atraso. "Tem mesmo de pagar, queremos lá saber que mal tenha para vestir o puto!".
Surge então o emprego que achei me salvaria. Chefe de Secção do Jumbo, um emprego de responsabilidade que me poderia levar longe. Ganhava bem (1300€ é bem?). Trabalhava em média 14 horas por dia, 6,5 dias por semana. O M. tinha acabado de fazer 1 ano e ficava na minha mãe 3 a 4 vezes por semana. A minha vida em casa andava caótica e nem por isso o meu emprego andava melhor. Pelo que, quando chegou ao fim o meu contrato e a minha chefe me diz que não vão renovar, respirei de alívio. Não se pode pedir isto a uma pessoa. E o triste é que eu via colegas que vibravam com aquilo! Eu passava o dia a quase chorar sempre que via uma mãe às compras com o seu filho! Eu nunca via o meu filho! Mas se calhar sou eu, que sou preguiçosa e tenho as minhas prioridades trocadas...
Centro de Emprego outra vez, Subsídio Social de Desemprego (472€!). Nos entretantos, estudos de mercado na Marktest. Com direito ao final do primeiro mês dizerem ("desculpe, houve um erro a processar as suas entrevistas e não chegou a tempo de receber este mês. Mas recebe no próximo mês, desculpe lá!"). Deixei de ter dinheiro para o passe de Metro, deixei de ir.
E então surge a oportunidade de trabalhar no que eu queria, empresa de comércio e serviços à agricultura, como técnica e vendedora. Foi um tempo óptimo, numa empresa familiar, que me deu um contrato certinho, mas a ganhar 500€, menos ainda que no meu primeiro emprego, 6 anos antes! Engravidei logo de início, a reacção foi boa, o contrato renovado. Nasceu o G., antes do fim da licença vei o blá blá de novo, tudo acabou de novo...
Agora cá estou, de novo vendedora, já não tanto deslumbrada com carro, computador e telefone, sinceramente à espera do que acontece no final do contrato.
Acho que não sou perguiçosa. Estou é muito desiludida. E quanto mais avanço mais certezas tenho acerca das minhas prioridades na vida, que cada vez menos passam pelo sucesso profissional, no qual simplesmente não acredito...
E sou eu e milhares como eu.
Somos mesmo parvos!

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